Fotos acima: Cenário da cidade de Santos na primeira metade do Século XX.

Thomas e sua irmã Margot Rittscher, a primeira mulher a surfar no Brasil, “atletas” da década de 30.

Osmar Gonçalves praticando SUP (surf de pé com remo), muito antes desta nomenclatura ser criada.

Ao lado: Osmar e sua imagem icônica de 1938, ao redor do Canal 3.

FOTOS: ACERVOS DAS FAMÍLIAS GONÇALVES E RITTSCHER

ABAIXO: REVISTA PUBLICADA EM 1937



Um grupo de jovens, tomando como base uma matéria de Tom Blake, que explicava o processo de fabricação de uma prancha havaiana oca (Hollow Hawaiian Surfboard) para deslizar junto com as ondas do mar, cravou o primeiro marco na história do surf brasileiro. O surf no Brasil (para valer/ficar de forma definitiva) começou no Rio de Janeiro a partir dos anos 50; ponto! Mas temos os registros da década de 30 em Santos. Embora o surf não tenha criado raízes e desabrochado deste fenômeno isolado, analisar este acontecimento é importante.
É histórico.

Praia de Juquehy, no Município de São Sebastião, SP região que se manteve imaculada até o início dos anos 70. FOTO: FERNANDO MESQUITA

Como em todo bom livro de “história” poderia me deter aqui em alguns parágrafos sobre a história do surf de forma geral, de suas origens no Havaí, no Peru e até na África... Hoje temos diversas fontes de pesquisa e filmes que retratam e especulam sobre o nascimento do surf, portanto, prefiro me ater à história do surf brasileiro. Ancorado sobre este aspecto cabe aqui dar asas a uma ponderação... Antes mesmo de eu começar a surfar, nos anos 60, meus pais se aventuraram rumo ao litoral norte de São Paulo e compraram um terreno na praia de Juquehy, município de São Sebastião. Era uma epopeia chegar até lá de carro. A jornada incluía balsa, pontes de madeira precárias, atoleiros e trechos com o carro na areia de diversas praias, driblando as ondas com a maré cheia e disparando para não atolar na areia fofa no momento de voltar para a estrada de terra para passar por trás, ou por cima, do morro que dividia a próxima praia. Chegando em Juquehy as areias “latiam” ao corrermos sobre ela (Juquehy em tupi-guarani significa areias cantantes) e ali vivi uma das grandes emoções de meus tempos de garoto. Simeão Faustino, o caiçara de quem meus pais compraram o terreno, tinha uma canoa de pesca, típica do litoral paulista, debaixo de folhas de coqueiro, na orla da praia exatamente no local em que foi erguido o primeiro condomínio de várias casas geminadas construído em todo o litoral sul de São Sebastião, o “Porto Juquehy”. Convidados por Simeão, eu e meu irmão Renato, sentamos nos bancos da frente enquanto Simeão entrou no mar para um passeio. Na volta... A emoção! Posicionado na popa da canoa ele dropou uma onda de meio metrinho, usando o remo como propulsor e leme. Veio dar na areia com uma velocidade alucinante. O que foi aquilo!?! Foi surf. A especulação doida vem do fato destas canoas, escavadas de um único tronco de árvore, virem da tradição dos índios Guaranis, que habitavam estas praias. Agora paira a indagação: seria possível, em tempos pré-Cabralinos, estes mesmos índios terem sido os primeiros surfistas do Brasil, saindo da foz do Rio Juquehy, ou do Rio Boracéia (onde até hoje há uma tribo) e terem seguido para pescar no mar e voltado... surfando?

Juá Hafers, Osmar Gonçalves ao centro e reprodução da abertura da Revista Trip Número 94, de outubro de 2001, com Thomas Rittscher.
FOTOS: ACERVOS DAS FAMÍLIAS GONÇALVES E RITTSCHER

Bem, disso não temos prova, talvez algum surfista/antropólogo monte este quebra-cabeça, mas o que sabemos e temos registro é de momentos de surf em Santos ainda nos anos 30. Na pesquisa de Alex Gutenberg, há um quarto de século, para realizar o livro/revista “História do Surf no Brasil”, ele se deparou com três amigos de Santos: Osmar Gonçalves, Juá e Silvio, que praticavam surf na praia do Gonzaga, no final dos anos 30. Alguns anos mais tarde, através de John Wolthers (de família tradicional de surfistas pioneiros em Santos), Diniz Iozzi veio a conhecer Thomas Rittscher Junior e sua irmã Margot, que comprovaram ser ainda mais pioneiros. Embora o surf não tenha frutificado de forma definitiva daquelas empreitadas, estes momentos têm registro fotográfico e podem, de fato, serem considerados os primeiros lampejos do surf em território brasileiro. A base de estudos para a construção destas primeiras pranchas foi a publicação de um artigo na revista Popular Mechanics em matéria publicada na edição de julho de 1937. Recentemente algumas réplicas destas pranchas foram construídas por carpinteiros navais de Santos e podem ser apreciadas na Faculdade Santa Cecília, o exemplar do Museu do Surf, está na loja Sthill Tech, em Santos. Outras duas réplicas estão no acervo da revista Alma Surf e com a família Gonçalves em Campinas. Thomas Rittscher nasceu em New York (1917), passou a infância na Ilha de Manhattan e faleceu em 2011 aos 94 anos, em Santos. Veio para o Brasil ainda muito novo (1930), continuou surfando até 1941, quando precisou se apresentar em virtude da II Guerra Mundial. Após o ataque a Pearl Harbor voltou aos EUA, mas acabou não precisando servir no front, sua irmã Margot ainda continuou surfando por mais tempo em Santos. Thomas era o que podíamos chamar de “um jovem ativo e diversificado”. Atlético, praticou vela, remo, hipismo, saltos ornamentais, polo aquático, arremessou dardo e disco, jogava o ainda inexistente frescobol com tamborins de pele de gato. Ao ver a matéria na revista Popular Mechanics, decidiu que era aquilo (a novidade – o surf) que desejava fazer. Não foram apenas Thomas e Osmar os precursores do surf, a irmã de Thomas, Margot e o amigo de Osmar, Silvio Malzoni, também foram mencionados. Um personagem que parece ser um pivô desta história é João Roberto Suplicy Hafers, descendente de franceses com alemães, seu pai começou trabalhando com café no porto de Santos e acabou se transformando num dos maiores corretores da época. Juá, como é conhecido, foi colega de Thomas, ambos partiam para “surfaris” colocando as pranchas num carro conversível para desbravar picos da região, pela descrição de Thomas, um deles parece ter sido a Porta do Sol. Thomas diz ter emprestado a tal revista para Juá e este teria entregado a Osmar. Na reportagem de Alex Gutenberg, Osmar Gonçalves comenta que a revista foi trazida dos EUA por seu pai, que devido a ser um próspero exportador de café, viajava com frequência para a América do Norte. Segundo pesquisa de Cisco Araña, todas estas pranchas iniciais foram construídas com auxílio do engenheiro naval Júlio Pulz, isso no verão de 1938. Osmar Gonçalves nasceu em 1921 e faleceu em abril de 1999, durante mais de uma década foi celebrado como o primeiro surfista do Brasil. Homenageado no Dia do Surf na Câmara dos Vereadores de São Paulo tem seu legado deixado para a posteridade como um dos precursores, continuou surfando até meados dos anos 40, ao casar-se mudou para o interior do Estado e abandonou o esporte, porém deixou sua imagem icônica ao lado do modelo de prancha de Tom Blake, construída no Brasil, hoje uma estátua na orla de Santos. Mais do que consagrar Thomas (como o primeiro a surfar no Brasil) ou Osmar (como o primeiro surfista brasileiro), o fato histórico a ser destacado são os primeiros registros fotográficos de surf em território brasileiro. A atitude empreendedora de basear-se em uma revista internacional para praticar um esporte novo. A declaração de ambos de que ao ver do que se tratava tal artigo da Popular Mechanics, pensaram: “É isto que eu quero fazer!”. Assim nasceu o surf no Brasil. A possibilidade de outros personagens terem deslizado impulsionados por ondas brasileiras anteriormente, não pode, nem deve, ser descartada. Trabalho com os fatos coletados até esta data.









A cidade de Santos nos anos 30 vibrava como um das portas de entrada para a que viria a se transformar na maior cidade da América do Sul. Seu porto era a principal porta de saída para o maior produto de exportação do país, o café. Nesse tempo a maioria dos visitantes a São Paulo chegava de navio (o aeroporto de Congonhas foi inaugurado em 1936), outra opção era a estrada de terra batida “Rio – São Paulo” de 1928 (apenas em 1951 surgiu a pavimentada Via Dutra).



Os famosos canais, que presenteiam Santos com uma geometria única, começaram a ser construídos em 1907. Nos final dos anos 30 na praia do Gonzaga, ao redor do Canal 3, com suas ondas que quebravam gentilmente em direção à praia, formava-se o cenário perfeito para tentar a intimidade com estas pranchas que chegavam a pesar 80 quilos quando a água começava a penetrar em sua estrutura oca. Thomas chegou a comentar com Paulo Lima (em entrevista para o programa Trip – FM, na Rádio Eldorado), que chegou a tentar usar a prancha das duas formas, com o bico normal e com a rabeta apontada para a praia. A experiência destes jovens era de pura alquimia, tentativa e erro. A verdadeira introdução do “novo” tendo como base uma matéria (mais técnica do que explicativa do esporte) em uma revista estrangeira. Existe um elo perdido nesta história. Margot aparece surfando com uma prancha bem menor, apenas deitada, já no meio dos anos 40. O esporte foi abandonado em Santos? Aquelas ondas gentis e convidativas não atraíram novos adeptos?
Se esta “primeira” semente não germinou ali, na década seguinte a cidade do Rio de Janeiro faria o papel de se transformar no parâmetro para o desenvolvimento do surf brasileiro, por algumas décadas. ESSA HISTÓRIA SERÁ CONHECIDA NOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS... Conversando como o professor Cisco Araña ele aventou algumas hipóteses. Existem especulações de surf em Santos já nos anos 50. No Rio de Janeiro ainda nos anos 40...

ESTE PROJETO FOI INICIADO E TODAS AS COLABORAÇÕES DOCUMENTADAS SERÃO ORGANIZADAS E ARQUIVADAS ATÉ O LANÇAMENTO DO LIVRO IMPRESSO EM 2014.