VOLUME 2, PANDEMIA E O ÍCONE DANIEL FRIEDMANN (Parte 1)

DANIEL E AS ONDAS DO ARPOADOR, SINTONIA PERFEITA. FOTO: FEDOCA

Volto a ativar meu BLOG (do livro) com esta primeira postagem deste ano, são trechos de uma entrevista que fiz em 2015 com o surfista carioca Daniel Friedmann, um dos selecionados para ser apresentado em um capítulo de 8 páginas no VOLUME 2 de minha obra.

ESCLARECIMENTOS

Neste ano de 2020 minha ideia era estar completando a obra:

5 VOLUMES

132 PÁGINAS CADA

TOTAL 660 PÁGINAS

No Vol. 5 já viria (virá) um capítulo sobre a participação brasileira nas Olimpíadas do Japão. No final deste ano eu estaria lançando a BOX (uma caixa) com os 5 livros.

Minha preocupação maior sempre foi com a precisão de meu trabalho. Os prazos estipulados foram sendo dilatados ao sabor das ondas, dos patrocinadores e agora de uma pandemia, que abalou o planeta, abalou nosso “Mundo do Surf” ancorado em viagens buscando ondas perfeitas pelas praias, muitas delas hoje (MAIO 2020) interditadas.

Não perdi o foco em meu trabalho. Tudo, a coleção de livros, este blog, as entrevistas, a coleta de informações da pesquisa, acontecerá em seu tempo.

Aqui um pouco da história de um dos maiores ÍCONES do surf brasileiro.

Informações e imagens em apresentação diferente da que sairá no livro.

Surfista de estilo refinado, Daniel Friedmann foi o segundo brasileiro a vencer uma etapa do Circuito Mundial em 1977. Shaper, diretor de prova em alguns dos mais importantes eventos realizados no Brasil. Estudou Administração de Empresas e Educação Física. Por mais de uma década cuidou de sua pousada em Visconde de Mauá, na região da Serra da Boacaina no sul do Rio, mas o grande foco de sua vida foi o relacionamento com o surf.

SHAPER DESDE A PRIMEIRA METADE DOS ANOS 1970

Vamos conhecer um pouco de sua história, contada por ele mesmo: DANIEL JOSÉ FRIEDMANN (RJ – 27/2/1956)

“Comecei com uma Planonda de Isopor. No começo eu ia só deitado, um tempo depois já ficava em pé nela. Na verdade, eu fui crescendo e a prancha foi ficando pequena, chegou até um ponto em que eu emendei duas Planondas para poder ficar em pé nela. Usei dois cabos de vassoura, colei, fiz uma prancha que durou algumas semanas. Enfim, foi uma brincadeira.

O próximo passo, em 1967, foi uma madeirite que eu comprei ali na madeireira da R. Francisco Otaviano. Esse era um dos dois locais que havia fabricação de pranchas nacionais em madeira. Era o mais próximo da minha casa, na época eu estava me mudando para a própria Francisco Otaviano, antes eu morava na R. Sousa Lima, em Copacabana, entre o Posto 5 e o Posto 6. No início eu pegava onda ali em frente, havia um famoso posto Texaco, para o lado do Hotel Othon.

Nós ficávamos pegando as ondas de Planonda e já tinha um pessoal que pegava com pranchas de fibra. Eu já via o pessoal pegando ali e a onda era maravilhosa antigamente. Antes do aterro eu diria que ali era o melhor point do Rio de Janeiro. Eram ondas de valas e até melhores do que a Barra, porque na Barra às vezes a vala não está bem definida. Ali em Copacabana a vala existia sempre no mesmo local. O que acontecia é que quando o mar subia a onda ia cada vez mais para fora e sempre a onda abria. Tanto que o Baixio era o lugar preferido pelo pessoal da época para surfar ondas grandes. Elas só fechavam ali na beirinha, no final da onda, no restante a onda era perfeita.

POSTO 5 DE COPACABANA E O BAIXIO FUNCIONANDO EM DIA DE FORTE RESSACA, ANTES DO ATERRO.
FOTO: FREDDY KOESTER

Até 1967 eram poucas as pranchas de fibra disponíveis, a maioria delas eram importadas e muito caras. Para você ter uma ideia, a minha madeirite eu paguei Cr$ 60,00, na época nossa moeda era o Cruzeiro. Uma prancha de fibra estava entre Cr$ 200 a 250. Minha brincadeira com a madeirite durou apenas um mês, um mês e meio. Aí eu abri a cabeça com ela e fiquei um bom tempo parado. Eu já estava morando na Francisco Otaviano e um amigo meu pediu para deixar uma prancha guardada ali na minha casa. Automaticamente eu comecei a usar a prancha. Que eu me lembre, era uma prancha importada, creio que uma Jacobs. Fiquei surfando com essa prancha por uns seis meses, quase um ano. Depois eu passei a emprestar com o meu vizinho de cima, uma Aloha, feita pelo Mário Bração, por mais um bom tempo. Depois eu peguei uma São Conrado, que foi a segunda prancha minha mesmo, lembro que ela tinha duas longarinas, não sei quem fez o shape. A prancha já estava pronta lá no Coronel Parreiras, era um longboard e paguei Cr$ 550,00 na época. Fiquei mais uns seis meses com essa prancha, depois tive uma outra São Conrado, no final dos anos 1960, que já era uma Mini Model.

INFLUÊNCIAS INICIAIS – PRIMEIROS CAMPEONATOS

Os primeiros surfistas, mais velhos do que eu, que admirava eram o Ceceu, Pauleti, Maraca e tinha um outro cara, Domingos, que eu achava que pegava muito bem. Também o Betinho, Rebechi, Rico, Rafael Gonzalez (o Rato), era um excelente surfista.

PEPÊ

Conheci Pepê desde o início dele, dando seus primeiros passos no surf, sempre foi um cara muito atirado. Conhecia ele da Hípica, nós frequentávamos o mesmo clube, Floresta Country. Eu cheguei a cavalgar um pouco, tinha cavalo no sítio, mas eu nunca competi em hipismo como ele. A gente já se conhecia desse ambiente, depois fiz contato com ele na praia e ficamos bons amigos. Eu vi ele evoluindo, um garoto bem atirado ele se jogava bastante. Isso facilitou porque especialmente no Píer você tinha que ser atirado para poder se posicionar bem e pegar uma onda boa, enfim, ser respeitado ali, senão ninguém te deixava onda.

PEPÊ LOPES E DANIEL (1 ANO E MEIO MAIS VELHO), AMIGOS DESDE MUITO JOVENS. PEPÊ ABRAÇA O SHAPE DE DANIEL, PRANCHA ZERO AINDA SEM PARAFINA.
FOTO: ARQUIVO PESSOAL DANIEL FRIEDMANN

Em 1972, com 16 anos, fui para Ubatuba no primeiro Festival Nacional e foi o primeiro campeonato que participei, fiquei em terceiro lugar. Depois, no final do ano, teve o campeonato do Píer e eu ganhei a categoria Júnior. Lembro que na final estavam o Pepê, Lari, Robertinho, Zeca Mendingo e o Sabbá. A final Júnior acabou acontecendo umas semanas antes ainda em 1972 e a final Sênior foi no início de 1973.

PÍER

Para mim, o Píer foi uma experiência excelente, se eu pudesse voltar no tempo aquilo ainda seria uma experiência excelente. Indiscutivelmente foi a melhor onda do Rio, na cidade; Saquarema é uma onda excelente, especial, mas a característica da onda do Píer é diferente. Uma onda mais curta, de beach break, mas que tendo o píer ali não era exatamente de beach break, ela era um pouco diferente.

ANTES DE COMEÇAR A SHAPEAR, DANIEL ENCAIXADO NO PÍER COM UMA PRANCHA DE YSO AMSLER. MUITOS DOS GRANDES SURFISTAS CARIOCAS DOS ANOS 1970 TAMBÉM SE DEDICAVAM A ARTE DE FABRICAR PRANCHAS. FOTO: FREDDY KOESTER

A onda tinha um encanto, as próprias pilastras… Aquele negócio de você dropar de um lado e sair do outro lado. Na medida em que o crowd foi aumentando eu lembro de várias vezes dropar ondas do Backdoor e vir passando através das pilastras, para pegar o melhor momento da onda, onde ela ficava mais buraco, exatamente ao lado das pilastras. Era a parte mais rasa da bancada.

O Píer foi um momento excepcional para a gente ir ganhando experiência. Principalmente com tubos, isso era uma coisa que até o Arpoador oferecia, mas não com a constância do Píer. Além disso o Píer proporcionou a gente surfar ondas maiores, abrindo e muito buraco.

SWELL SÓLIDO. FOTO: PIERDEIPANEMA.COM.BR

Se você imaginar que o Píer tinha 7 metros de altura e que volta e meia apareciam ondas que lambiam o píer por baixo, então teve momentos de você ter ali ondas maiores do que 4 metros. Pode dar aquela discussão de medir pela frente, ou medir por trás. O fato é que elas chegavam a lamber o píer. Vi ondas muito grandes ali. Nesses dias o Penho estava lá, o Rafael estava lá, Maraca, Otávio, praticamente todo mundo que frequentou o Píer, surfava nestes dias.

A gente foi evoluindo, ganhando experiência para surfar ali. Do outro lado, me lembro de estar dropando ondas exatamente dentro do Píer. Remava de dentro dele. O Backdoor era um pouco mais complicado, porque ele era um pouco inclinado e as direitas iam literalmente para cima do Píer. Quem tentava pegar muito no canto, perto das pilastras, no ângulo que ficava ali era complicado, vi várias pessoas se machucarem.

PÍER DE IPANEMA EM DIA DE TERRAL, TÁ NA CARA QUE A ONDA VAI RODAR.
FOTO: ALEXANDRE “FREDDY” KOESTER

ARPOADOR

O Arpoador tem três momentos que fazem uma diferença.

Antes do Píer.

Quando o Píer estava em atividade não ficou muito bom, estragou o fundo.

Depois do Píer o Arpoador chegou a melhorar, mas nunca atingiu o potencial que era antes.

ARPOADOR EM DIA CLÁSSICO, DANIEL ACELERANDO DE OLHO NA PRÓXIMA SEÇÃO.
FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Hoje o Arpoador tem uma condição que é bem diferente do que era antigamente em que a areia que assentou atrás do pontão, permite que você surfe com mais frequência na última laje, que antigamente você só conseguia surfar com o mar bem virado de leste, de um tamanho bem maior do que você precisa para hoje conectar ela toda. Tanto atualmente, como antigamente (antes do Píer) são os dois momentos melhores. É diferente o mar. Hoje ainda tem momentos que fica muito bom, mas eu diria que antigamente tinha mais perfeição.

CAMPEONATOS

A nível de campeonatos foram propostas, cada vez crescendo mais e atingindo as metas que eu queria.

Quando eu fui para Ubatuba em 1972 eu não tinha nenhuma expectativa, até porque as pessoas com quem eu estava competindo estavam muito à frente. Eu fiz o meu melhor, consegui um terceiro lugar. Para mim foi quase como se eu tivesse ganho. Superei pessoas que eu nunca pensei que iria superar.”

PÓDIO DE UBATUBA EM 1972, PAULO ISSA ENTREGA O PRÊMIO PARA DANIEL. RICO NO TOPO, MARCOS BERENGUER EM SEGUNDO, DANIEL, COM 16 ANOS, FOI O TERCEIRO, BETÃO E BOCÃO COMPLETAM O PÓDIO, A FINAL AINDA CONTOU COM THYOLA CHIARELLA, O ÚNICO PAULISTA, EM SEXTO. FOTO: ARQUIVO PESSOAL PAULO ISSA

Esta é apenas a PARTE 1 do post com Daniel Friedmann e a grande entrevista que fiz com ele. Aguardem futuramente uma PARTE 2, com mais fotografias, resultados de Daniel, bem como mais novidades históricas, neste blog, nos livros que serão lançados em série e até em um canal do You Tube que fará parte deste projeto em breve.

EU, CUMPRIMENTO DANIEL FRIEDMANN, ABRAÇADOS POR YSO AMSLER, NO LANÇAMENTO DO VOLUME 1 (DE 5) DE MEU LIVRO, EM AGOSTO DE 2019, NA LOJA OSKLEN DA GALERIA RIVER NA RUA FRANCISCO OTAVIANO (RJ). EM PRIMEIRO PLANO O FOTÓGRAFO FEDOCA. FOTO: ALESSANDRA ANDRAUS

Acompanhem detalhes (há um LINK para comprar o VOL. 1) no site: http://hsurfbr.com.br/o-projeto/

4 thoughts on “VOLUME 2, PANDEMIA E O ÍCONE DANIEL FRIEDMANN (Parte 1)

  1. Yso Amsler says:

    TacalePau Salimmmm 😊 Taí, tomei conhecimento de uma proeza sua que eu desconhecia – cavalgar!
    Dragão, mais uma vez meus parabéns pelo seu Livro e excelente trabalho de pesquisa e reportagem!

  2. Freddy Koester says:

    Parabéns caro Reinaldo! Vou te enviar a planilha com fotos minhas que estão no DEDOC/Abril. A foto p/b do píer com o Arquivo pessoal do Daniel, é minha. Abraços do amigo FKoester.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *